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Apresentando a Terapia Ocupacional para as demais Áreas da Saúde

Apresentando a Terapia Ocupacional para as demais Áreas da Saúde

George E. Barton citou: “Se há uma doença ocupacional, por que não a Terapia Ocupacional?” Soares (2007)

Terapia Ocupacional: Processo Histórico e Atuação

A Terapia Ocupacional atualmente encontra-se em ascensão. Vários locais de trabalho têm requisitado o profissional de terapia ocupacional. Isso se dá pela relevância que este tem provocado no processo de reabilitação e reintegração do indivíduo na sociedade. Além disso, o terapeuta ocupacional está trabalhando de forma preventiva e promovendo um aumento na qualidade de vida do indivíduo.

A profissão é definida pelo curso de Terapia Ocupacional da USP- Universidade de São Paulo, como:

“... Campo de conhecimento e de intervenção em saúde, educação e na esfera social, reunido tecnologias orientadas para a emancipação e autonomia das pessoas que, por razões ligadas a problemática específica, físicas, sensoriais, mentais, psicológicas e/ou sociais, apresentam, temporariamente ou definitivamente, dificuldade na inserção e participação na vida social. As intervenções em Terapia Ocupacional dimensionam-se pelo uso da atividade, elemento centralizador e orientador na construção complexa e contextualizada do processo terapêutico”.

Locais como empresas, escolas/ creches, hospitais, instituições de reabilitação psiquiátrica, instituições penais, instituições para dependentes químicos, clínicas geriátricas, consultórios particulares e atendimentos domiciliares, cada vez mais procuram um profissional de terapia ocupacional. Nesses locais, o Terapeuta Ocupacional atua em áreas diversas como área física, saúde mental, neurologia, pediatria, geriatria/gerontologia e saúde do trabalhador, tendo como objetivo principal evitar o déficit de incapacidades funcionais que geram perda de independência e de autonomia do indivíduo.

Embora a profissão esteja sendo requisitada para trabalhar com essas áreas, ainda hoje, muitos profissionais da área da saúde questionam o papel da terapia ocupacional na equipe de reabilitação. Erros comuns são cometidos e ouvimos freqüentemente perguntas do tipo: “O que? Fisioterapia Ocupacional?”, “Você é Fisioterapeuta ou Psicólogo?”, ou ainda recebemos afirmações do tipo: “Entendi: você é meio psicólogo e meio fisioterapeuta”, e quando somos contratados por algumas instituições ouvimos “Você está sendo contratado para ocupar o tempo destes pacientes”  ou “A gente queria contratar um artesão, mas a lei existe que a instituição contrate um terapeuta ocupacional”. Esses equívocos ocorrem devido ao nosso processo histórico, a forma como o profissional da área da saúde atuava antigamente e a maneira como se via as pessoas que necessitavam do processo de reabilitação.

Se nos remetermos ao Tratamento Moral de acordo com Nascimento (1991 apud Soares 2007), a terapia ocupacional e os manicômios tinham características comuns em relação à forma de tratamento, sendo que “O trabalho no asilo não era fator de expiação nem somente educativo; era, sobretudo, terapêutico (...). A ideologia do tratamento moral fornecia a racionalização daquelas práticas, justificando cientificamente tanto o enclausuramento como a obrigação do trabalho. O trabalho, na medida que apresentava a aprendizagem da ordem, da regularidade e da disciplina, passou a constituir cada vez mais o eixo do tratamento moral” (p.66)

Historicamente pode-se dizer que a profissão surgiu em outros países  no início do século XX, com o intuito de ensinar novos ofícios aos neuróticos de guerra e às pessoas que foram mutiladas no campo de batalha. Soares (2007) afirma que “a Terapia Ocupacional surgiu na idade contemporânea a partir de dois marcos históricos- a Revolução Francesa, em 1789, e a Primeira Guerra Mundial, em 1914”.

No Brasil a Terapia Ocupacional e o Tratamento Moral foram trazidos pela família real. A terapia pelo trabalho também foi denominada de ergoterapia, paxiterapia e laboterapia. Esses conceitos foram substituídos na medida em que o curso e a profissão foram criados no país na segunda metade do século XX.

Uma ação importante ocorreu a partir da década de 40 onde questionava-se a prática profissional da terapia ocupacional, sendo que esta não tinha um suporte teórico que sustentava a profissão.

Drummond (2007) relata que dois fatores desencadearam ações para tornar a terapia ocupacional uma profissão com embasamento científico. Sendo o primeiro fator externo à profissão devido à repercussão política, econômica e social da Segunda Guerra Mundial ao incrementar a produção de bens tecnológicos e a busca das especializações em diversas áreas. Alienou-se a isso a influência da medicina sobre a terapia ocupacional, levando-a à necessidade de explicitar seus mecanismos de intervenção com maior clareza. Quanto aos fatores internos da profissão ressalta-se o desejo de autonomia dos terapeutas ocupacionais em relação à classe médica e à própria insatisfação quanto à falta de domínio teórico das práticas realizadas.

“O investimento em explicar os fundamentos da terapia ocupacional consolidou-se a partir da década de 70, quando se indagavam quais seriam os elos de ligação entre as distintas áreas de atuação da profissão e, mais especificamente, sobre o que se produzia sobre a ocupação”. (p.11) Drummond (2007)

No Brasil, até a década de 80, a terapia ocupacional vinculava-se à literatura estrangeira e à vivência das práticas profissionais.  Soares (2007) afirma que “...no Brasil, de 1948 a 1980, a profissão se institucionalizou. A formação profissional se iniciou por meio dos cursos de treinamento em 1948 em saúde mental pela Dra. Nise da Silveira...”. Além disso, a autora também garante que em 1956 começaram a existir treinamentos para a reabilitação física e em 1961 a profissão passou a ser de nível universitário.

A partir do contexto apresentado, verifica-se que atualmente a Terapia Ocupacional tem sua prática voltada para ocupação humana, sendo que se leva em consideração a capacidade do ser humano de exercer suas atividades funcionais.

Drummond (2007) relata que a terapia ocupacional esta centrada no desenvolvimento das capacidades do ser humano em desempenhar suas ocupações na escola, na casa, no trabalho, no brincar, no lazer e na comunidade. Esse conceito também é aderido pela Classificação Internacional de Funcionalidade Deficiência e Saúde (CIF) proposta pela OMS.

Didaticamente, a profissão é dividida em áreas, tais como: física, mental, neurológica, social, pediátrica, geriátrica e saúde do trabalhador. Mesmo com essa segmentação didática, o ser humano é visto pelo profissional de terapia ocupacional como um ser integral.

Essa segmentação, porém, torna-se importante para que se tenha noção da atuação geral do profissional de Terapia Ocupacional. Portanto, essa atuação pode estar ligada a:

• área física: baseado na Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, a deficiência física é definida como uma alteração completa ou parcial de um ou mais seguimentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física.Para a Terapia Ocupacional, um procedimento de reabilitação que se destaca na área física é a terapia manual, tendo em vista que a mão está diretamente relacionada com o fazer humano e com as capacidades funcionais. Por meio da mão, o homem se comunica, se relaciona e trabalha. Para Cavalcanti & Manhães (2007), “um trauma ou uma lesão no membro superior ou especificamente na mão gera diminuição das habilidades desempenhadas rotineiramente, perda de função e em determinados casos afastamento do trabalho”.
Para reabilitação de membros superiores, o Terapeuta Ocupacional baseia-se em objetivos como redução de dor, fortalecimento muscular, amplitudes de movimentos, capacidade funcional para executar as Atividades de Vida Diária e Atividade de Vida Prática, destreza manual, coordenação motora fina, confecção de órteses, adaptações baseadas nos recursos de Tecnologia Assistiva. Além disso, observa o impacto que a lesão ocasionou para a família, nas atividades profissionais, e na aceitação do indivíduo em relação a sua limitação.

• Saúde Mental: Para a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, a pessoa para ser caracterizada como deficiente mental deve ter: funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, tais como: comunicação, cuidado pessoal, habilidades sociais, utilização dos recursos da comunidade, saúde e segurança, habilidades acadêmicas, lazer e trabalho. Na saúde mental, o terapeuta ocupacional intervém em todas as áreas de habilidades adaptativas, uma vez que este utiliza de atividades expressivas, oficinas terapêuticas, atendimentos grupais com o intuito de favorecer o desenvolvimento do indivíduo para que esse se torne independente e autônomo. Para Tedesco e Libernan (2008), “o sujeito alvo de intervenção em terapia ocupacional traz uma problemática específica, experiência traduzida nas suas representações vividas além e apesar do déficit, da doença, do transtorno, da limitação. O sujeito traz a limitação e impressão desta experiência na sua vivência cotidiana, nas suas ações, nos seus afazeres. Neste campo relacional, o lugar do terapeuta ancora a entrada deste sujeito num campo experiencial em que a particularidade do encontro é alimentada pela subjetividade de ambos, em permanente “re-configuração”. As representações dessas experiências são vividas no setting envolto de um olhar de circularidade. Desta forma, o meio social, familiar, o trabalho, as produções, a corporeidade são composições instrumentalizadas na atividade” (p.9).
Esta definição nos permite compreender o papel do terapeuta ocupacional na saúde mental e na psiquiatria tendo em vista que o profissional promove atividades que favorecem a experiência do indivíduo para que esse seja inserido no meio social, familiar e no trabalho.

• Área neurológica: Devido à incidência de pacientes que apresentam alterações neurológicas e as seqüelas que essas patologias provocam, profissionais de terapia ocupacional cada vez mais têm se especializando em neurologia com o objetivo de promover a reabilitação desses pacientes. No processo de reabilitação o tratamento terapêutico ocupacional deve priorizar o controle de tronco e reeducação motora de membros superiores. Faria (2007) afirma que “A redução do controle de tronco pode acarretar aumento do risco de quedas, redução da habilidade de interação com o ambiente, disfunção visual e disfagia secundária ao posicionamento inadequado da cabeça e do pescoço e redução na performance ocupacional.” (p.189). É importante lembrar que o tratamento para pacientes que adquiriram lesão neurológica deve ser realizado precocemente, preferencialmente no primeiro mês, sendo que nesse período a probabilidade de recuperação funcional é maior.

• Área Social: Vivemos em uma sociedade de grande desigualdade  devido às contradições socioculturais e a um grande número de pessoas que são excluídas do convívio social. Essa exclusão pode ser originada pela desigualdade financeira, pela falta de acesso à educação, pela privação de um ambiente que favorece o desenvolvimento, por limitações provocadas por deficiências e doenças, entre outros fatores. Nesse contexto o terapeuta ocupacional tem o objetivo principal de trabalhar para a inserção e reinserção do indivíduo na sociedade tornando-o um sujeito ativo, participativo da história da qual faz parte.
Para adquirir esse objetivo, o terapeuta ocupacional disponibiliza de técnicas que o possibilita ser mediador do conflito gerado pela desigualdade social favorecendo ao indivíduo excluído estratégias para superar a sua desvantagem social.

• Área Pediátrica: Na área de pediatria o terapeuta ocupacional avalia a criança e identifica o seu desenvolvimento físico, mental e a sua interação social. Em seguida, compara a criança avaliada com teorias que descrevem o processo de desenvolvimento normal da criança de acordo com a sua idade cronológica. Posteriormente, elabora um processo de intervenção para que o atraso de desenvolvimento diagnosticado na criança avaliada seja minimizado.
Vale ressaltar que de acordo com Bartalotti (2007) “Na perspectiva da Terapia Ocupacional, crianças são consideradas com atraso ou desvio no desenvolvimento quando não são capazes de se engajar ou desempenhar uma ocupação, ou seja, realizar atividades e tarefas com um propósito dentro de um ambiente apresentando assim transtornos no desempenho ocupacional.”
Na prática pediátrica, o terapeuta ocupacional também procura desenvolver atividades que tenham significado para o paciente e utiliza como principal instrumento de seu trabalho o brincar de forma lúdica, levando em consideração que através do brincar a criança vivencia situações a que será submetida no dia a dia.

• Área Geriátrica: A reabilitação da pessoa idosa é feita pelo terapeuta ocupacional através de atividades que preconizam diminuir o déficit de incapacidades provocado pela idade e por patologias de origem física, mental e/ou neurológica.Mello (2007) afirma que cabe a terapia ocupacional identificar as habilidades que possam ser preservadas ou restauradas para que o idoso preserve sua independência e autonomia. A autora menciona que todos os idosos podem participar de um programa de terapia ocupacional, podendo estes ter patologias crônicas assintomáticas ou estar no processo de intervenção pré e pós cirúrgica ou mesmo em situações peri e pós situações agudas. Essas intervenções são realizadas em clínicas geriátricas, nos consultórios de terapia ocupacional, em hospitais ou até mesmo na casa do paciente. A reabilitação do idoso deve levar em consideração a família e seus cuidadores como alvo de intervenção e no processo de conscientização quanto ao papel dos mesmos no cuidado e saúde do idoso.

• Saúde do trabalhador: Na área da saúde do trabalhador, o terapeuta ocupacional atua sob dois níveis: o de prevenção e o de reabilitação. Na prevenção o terapeuta ocupacional busca prevenir doenças provocadas pelo desgaste gerado no trabalho, pela sobrecarga de stress, e outros fatores que provocam patologias oriundas do trabalho. Na reabilitação o profissional promove a reinserção do indivíduo no mercado de trabalho após uma lesão que provocou o seu afastamento ou favorece a aprendizagem de novas habilidades necessárias para a sua inserção no mercado de trabalho. Para tornar esse processo de prevenção e reabilitação efetivo o profissional utiliza de vários recursos. Destacam-se procedimentos relacionados às ginásticas laborais, a ergonomia e a Tecnologia Assistiva.

Mesmo que a Terapia Ocupacional seja segmentada didaticamente, consideramos no processo de intervenção que o indivíduo é um ser dinâmico que está sempre contextualizado em ambientes familiares, de trabalho e na sociedade. Na hora da atuação, o profissional transita pelas diversas áreas de atuação da Terapia Ocupacional, com o objetivo principal de tornar o sujeito alvo de intervenção capaz de executar suas ocupações humanas em ambientes diversos, tornando-o participativo do contexto social em que vive.

As estratégias terapêuticas variam dependendo do objetivo da intervenção. O Terapeuta Ocupacional, porém, atua levando em consideração as “Sete Áreas de Abrangência” ou de ocupação. Sendo estas divididas em: Atividades de Vida Diária (AVD’s), Atividades de Vida Prática (AVP’s), Educação, Trabalho, Lazer, Participação Social.

De acordo com Teixeira (2003), as Atividades de Vida Diária (AVD’s) são aquelas relacionadas aos cuidados pessoais e à mobilidade, subdividindo-se em quatro grupos (mobilidade, cuidados pessoais, comunicação e ferramentas de controle). As Atividades de Vida Prática (AVP’s), também denominadas de Atividade da vida Diária Instrumentais, são caracterizadas por atividades relacionadas para solucionar problemas e habilidades sociais e de interação com o ambiente, subdividindo-se em administração da casa, apto a morar em comunidade, administrar a saúde, administração de segurança e ferramentas de controle do ambiente.

As demais áreas estão relacionas com as habilidades necessárias para a execução das AVD’s e AVP’s.

Conclusão
A Terapia Ocupacional é atualmente uma profissão da área da saúde que faz parte do processo de reabilitação do indivíduo alvo de intervenção. Foi questionado quais seriam os fatores que fazem com que os demais profissionais da área da saúde desconheçam o papel da Terapia Ocupacional na equipe multidisciplinar levando em consideração o processo histórico no qual estamos imbuídos. Foi mencionado quais são as áreas de atuação do terapeuta ocupacional e descreveu-se quais recursos este utiliza para desempenhar o seu processo de reabilitação.

Acredita-se, portanto, que você leitor saiba compreender a partir de agora o papel do Terapeuta Ocupacional na equipe multidisciplinar, tenha esclarecido parte de suas dúvidas e escolha um profissional de terapia ocupacional para fazer parte de sua equipe. Vamos lá, estamos prontos para trabalhar juntos!!!

Josiane Maria Santana Silva Nascimento
Terapeuta Ocupacional- Especialista em Tecnologia Assistiva pela Faculdade de Ciências Medicas de Minas Gerais (FCMMG). Pós Graduando em Terapia Ocupacional: uma Visão Dinâmica em Neurologia pelo Centro Universitário Católico Salesiano Auxilium. Pós Graduando em Acupuntura pelo Instituto Brasileiro de Acupuntura.

SERVIÇO
Clínica Inclusiva
Site: www.clinicainclusiva.com.br
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